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A posse do Ministro Juca Ferreira

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Data de Publicação: 1 de setembro de 2008


Já vivi momentos políticos e culturais de todos os matizes, neste mais de meio século de existência, com mais da metade dele dedicado exclusivamente à produção artística, ao mundo acadêmico, à militância social e à defesa intransigente das grandes causas humanísticas. Porém, confesso a todos: nada comparável à tarde da última 5ª feira (28/08), vivida em Brasília.

O Palácio do Planalto é o cenário. As pessoas chegando e se aconchegando no salão, vindas de todos os canto e recantos do país. Parlamentares, baianas devidamente paramentadas, índios, portadores de necessidades especiais, secretários e dirigentes municipais e estaduais de cultura, governadores, pesquisadores, ministros, artistas, diplomatas, produtores e demais agentes culturais, representantes de todas as linguagens artísticas – da música, do cinema, do teatro, da literatura, das artes visuais etc.

Sinto que uma das mais belas páginas da história da cultura brasileira está sendo escrita naquele ambiente, que parece não caber mais ninguém. Fotógrafos e cinegrafistas se acotovelam disputando os mínimos espaços, acompanhando, com suas câmeras e lentes vigilantes, uma multidão de repórteres e jornalistas alvoroçados. Personagens consagrados e outras menos conhecidas procuram em vão acomodação nas cadeiras, que por certo não conseguirão abrigar aquele número inesperado de convidados.

Encontro e saúdo várias personalidades que integram a cena política e cultural do país. Danilo Miranda, Presidente do Comissariado Brasileiro do Ano da França no Brasil, que enaltece para todos o papel que o Maranhão vem desenvolvendo na preparação do evento; Luiz Fernando de Almeida, Presidente do IPHAN, que reiteradamente pede desculpas pelos transtornos e pela apropriação política sobre as suas declarações acerca do título de Patrimônio da Humanidade de São Luís; a cantora Sandra de Sá, numa esfuziante e carinhosa saudação, indaga quando poderá vir ao Maranhão fazer uma apresentação; meus colegas secretários de cultura de todo o Brasil, com destaque para a Presidente do nosso Fórum Nacional, Sônia Terra, que me repassa cópia de uma matéria do jornal "Meio-Norte" publicada no dia anterior, contendo a minha foto; o ator e velho companheiro Sérgio Mamberti, jubilante e generoso nos abraços a na distribuição de simpatias; Alfredo Manevy, que em breve será oficializado como o novo Secretário Executivo do Minist
ério da Cultura; Vovô, do Yllê Salvador), amigo meu e do saudoso Escrete, confirmando sua a vinda ao Maranhão em novembro próximo...

Consigo uma vaga em posição privilegiada, na fila da frente, graças à perspicácia e atenção da Micaela (SECMA), "reservada para as autoridades". Por que não eu? Sou sim, neste momento, uma das autoridades ali presentes, tanto quanto os deputados e senadores que me rodeiam. Estou legitimamente representando o meu Estado, o Maranhão, e o meu Governador – Jackson Lago.

O cerimonial, em vão, tenta convencer-me do contrário, porém não apresenta argumentações convincentes, nem para mim, nem para a Presidente da Fundação Cultural do Piauí, que também está representando o Governador Wellington Dias. Cumprimento e sou cumprimentado ainda por algumas personalidades que passam por perto, algumas bastante conhecidas, que se acomodam em cadeiras próximas: Deputada Vilma Bezerra (PT/RN), Senador Eduardo Suplicy (PT/SP), Deputado Sarney Filho (PMDB/MA), Governadores Marcelo Deda (PT/SE) e Jaques Wagner (PT/BA) etc.

Finalmente, o cerimonial do Palácio do Planalto anuncia a tão esperada chegada ao salão do Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que ocupa a cena principal, acompanhado do Vice, José Alencar, da Ministra Dilma Roussef, do Ministro Interino do Estado da Cultura, Juca Ferreira, e do ex-Ministro, Gilberto Gil - o mais ovacionado de todos os componentes da mesa. Um ex-operário, um respeitado empresário, dois ex-guerrilheiros exilados, e um dos artistas populares mais nobres do Brasil e do mundo.

Estava claro que aquele não poderia ser somente um simples ato de transmissão de cargo ministerial. Nunca, jamais o seria.

O Presidente Lula entendeu perfeitamente a situação e assumiu o papel de mestre de cerimônias; quebrou o protocolo, e convidou o ex-Ministro Gil (eterno na sua saudação presidencial) a fazer uso da palavra ou cantar, se assim preferisse.

Foi um discurso dos mais sinceros e comoventes de antes nunca feito neste país. Uma prestação de contas públicas, como só um artista com a alma encharcada de humanidades poderia fazê-lo. Usou o termo "deslocamentos" para explicar a inversão de prioridades culturais e o olhar que foi dirigido pela sua gestão a todas as regiões brasileiras, a todas as diferentes etnias e à colocação da cultura do país no cenário mundial. Falou das dificuldades e das incompreensões daqueles que sempre foram privilegiados pelos orçamentos públicos e dos que insistem em entender a cultura somente como sinônimo de espetáculo e de gigantescos eventos, quase sempre concentrados nas capitais e no eixo Rio-São Paulo. Falou da política de editais públicos, de temáticas inovadoras, como cultura cidadã e economia da cultura, e do grande papel do audiovisual no contexto da convergência digital – cinema, tv, telefonia celular, internet etc.

Por fim, do nome e da história de vida do seu sucessor, Juca Ferreira, e do seu importante papel para a consolidação de uma política pública de cultura, de Estado, não mais de governo, implantada de forma democrática e descentralizada, pactuada entre a União, Estados e Municípios, respeitando acima de tudo a diversidade cultural brasileira.

O Presidente Lula reservou para si, no bom sentido, o desfecho da festa. Uma festa brasileira, com certeza. Confessou de público, de forma bem humorada, que quando convidou o Gil para assumir o MinC pensava, estrategicamente, que com isso estava contemplando o Partido Verde, acomodando as suas investidas contra o governo. Muito depois descobriu que o Gil sequer era filiado a algum partido político, e muito menos ao PV. Acrescentou que pessoas do status do Gil não precisam de indicações partidárias, pois acabam por pertencer a todos os partidos. São verdadeiros patrimônios nacionais. Fechou seu discurso justificando a escolha do Juca Ferreira, e conferindo-lhe a responsabilidade de implantar o Programa Mais Cultura, até 2010, em todo território brasileiro. Todos de pé, mais de três minutos de aplausos ininterruptos.

Aproximo-me do grande cortejo que cerca o Presidente e os seus Ministros. Chego perto do Lula que, logo à primeira vista, identifica o velho companheiro e fundador do PT e me recebe com um longo e caloroso abraço. Poucas palavras permitidas pelos seguranças. Momentos depois é a vez dos cumprimentos ao Ministro Juca Ferreira, que me causa um grande embaraço, ao declarar em alto e bom som, a toda multidão de repórteres presentes: "Este é o melhor Secretário de Cultura do País!" A estas alturas, já são demasiadas as emoções para uma tarde só.

Somente então pude perceber todo o significado daquele momento e de grande parte da minha vida. Da infância pobre nos subúrbios, das graves doenças beirando a morte, da militância cultural, da participação nos anos 70 dos quadros da POLOP (mesma organização revolucionária da Ministra Dilma), do movimento estudantil, das históricas passeatas, da Greve da Meia-Passagem, das injustas prisões, da luta pela anistia, pelas liberdades democráticas, pelas Diretas Já, pela construção do Partido dos Trabalhadores (junto com o atual Presidente), dos companheiros mortos e torturados, da alma eternamente apaixonada pela nossa São Luís; pela minha família, por D. Amália e seu João Situba, pela companheira Rose; pelos bares e becos das minhas boemias; pelo mergulho nas pedras e ladeiras; azulejos e palmeiras; palafitas e sobrados; pelos homens e mulheres (de boas e más vontades); e até mesmo por aqueles rancorosos e intolerantes que povoaram e povoam até hoje minha existência.

Por tudo isso, e por tudo aquilo que a vida e a arte ainda queiram me proporcionar, confesso-me imensamente agradecido.

Aos poetas Neruda e Gullar: confesso que vivi; e, como legítimo guerreiro desta taba, continuo vivo, disposto a morrer pelas coisas que acredito!

Joãozinho Ribeiro


O Secretário de Estado da Cultura do Maranhão Joãozinho Ribeiro escreve às segundas-feiras no Jornal Pequeno.

Artigo publicado na edição de 1º. de setembro de 2008 no Jornal Pequeno.

 

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