Voltar ao topo

[ENTREVISTA] Gisele Vasconcelos



Professora, atriz, pesquisadora, contadora de histrias, danarina, esposa e me. Gisele Vasconcelos, atriz de renome no Maranho, coleciona prmios desde 2000. Entre as premiaes esto o prmio Sol Nascente de Artes Cnicas (USP, 2015) e Prmio Artes na Rua (FUNARTE, 2014)
Iniciou aos 17 anos no teatro, foi capoeirista e bailarina de dana popular. Ingressou no curso de jornalismo na Universidade Federal do Maranho, mas fez transferncia interna para o curso de teatro quando ainda cursava o primeiro perodo. Sorte do pblico maranhense que hoje pode prestigiar essa grande artista nos palcos da cidade.
Confira a entrevista na integra a seguir:

1. Voc iniciou sua carreira na capoeira, certo? Fale um pouco sobre essa fase da sua vida? Como a capoeira te aproximou do teatro?

Eu comecei como capoeirista no Laboarte. Eu me aproximei do Laboarte por causa da capoeira. Eu cheguei at a participar de rodas de capoeira nas praas Deodoro e Gonalves Dias.
Da capoeira fomos para Portugal participar de um festival de teatro e expresso ibrica. Nesse festival, como eu jogava capoeira e danava, eu fui com o grupo de cacuri, tambor de crioula e capoeira. Quando voltei fui convidada para fazer parte do espetculo Os Saltimbancos com direo do Beto Bitencourt, que foi meu primeiro diretor de teatro.

2. Qual sua relao com a dana popular? Como ela influenciou a sua carreira artstica?
A minha relao com a dana popular comeou no Laborarte. Antes eu tinha feito ballet clssico, fui aluna da Regina Teles e da Miriam Marques. Com a Miriam Marques eu conheci a dana contempornea e vi que era mais a minha onda. A partir dai eu iniciei na capoeira. Da capoeira eu me introduzi no cacuri e no tambor de crioula nessa tradio de aprendizagem da cultura popular com mestre Fepipe, mestre Patinho e Tet.

3. Voc j tinha pretenso em trabalhar com teatro? O que fez voc desejar trabalhar com isso?
O teatro foi minha primeira profisso e tornou-se a nica. Eu comecei com 17 anos fazendo animao de festa quando era da companhia de teatro Trupe Mgica. Eu comecei como palhaa e contadora de histrias. Eu digo que sempre estudei, pesquisei e trabalhei com contao de histria desde o inicio de carreira at os dias de hoje.

4. Qual foi a experincia mais marcante nesses anos de carreira no teatro?
Eu fiz muito trabalhos e muito difcil delimitar o que mais me marcou, mas eu posso falar sobre o projeto que mais tem me tocado. O Xama Teatro, que minha atual companhia, trabalha muito com projetos para comunidade que no tem acesso ao teatro. Ns trabalhamos recentemente com o projeto A Rota dos Balaios em que fizemos a rota nos lugares em que a balaiada passou no Maranho.
Nos apresentamos em cidades em que as pessoas nunca tinham assistido nenhuma apresentao teatral e quando apresentvamos espetculos toda a comunidade se reunia em uma grande roda e silenciava para assistir atentamente o espetculo. Todos os trabalhos que so em comunidade para pessoas que as vezes no tem acesso a cultura me marcam demais.

5. Qual foi o gnero mais difcil que voc j trabalhou at hoje?
Eu sou uma atriz que tem que cantar em cena. A msica sempre foi um grande desafio para mim. Eu comecei com um espetculo em que eu precisava cantar que foi Os Saltimbancos, mas nessa pea eu tinha o apoio do coro que cantava junto, ento para mim foi um pouco mais fcil. Na verdade todos os espetculos que eu j participei primavam muito pela teatralidade. muito difcil eu trabalhar com cenas muito naturalistas. Eu gosto do teatro em que o ator canta, dana, fala e conta.

6. A msica te ajuda na contao de histria?
Como contadora de histria eu sempre cantei, fiz muitas msicas. Eu criei uma msica que se hoje voc chegar numa escola todas as crianas iro cantar juntos. O Xama Teatro tem um programa na Rdio Universidade FM, desde 2005, todo final de semana s 11h e 16h. Eu como contadora de histria e atriz sempre tive que cantar.

7. Quem so seus referenciais na arte?
Meu primeiro encontro com o teatro aconteceu graas a Beto Bittencourt, Cludio Silva e Zez Lisboa que so alguns dos meus referenciais. Alm deles tambm esto Luiz Pazinni, Aro Paranagu e Urias de Oliveira.

8. Alm de atriz, capoeirista e danarina voc tambm professora de teatro. Quando surgiu a vontade de dar aula? Voc sempre quis ser professora?
Eu sempre achei que eu seria professora, atriz, produtora, pesquisadora e tudo mais na arte cnica. Hoje eu trabalho com o trip: eu sou atriz, pesquisadora e educadora.
Tudo comeou no ltimo ano de faculdade quando trabalhei como professora de teatro na Escola Reino Infantil. Hoje considero a professora Socorro uma pessoa muito importante para minha carreira. Foi ela quem me incentivou a me tornar uma contadora de histrias, ela me abriu bas, livros, fantasias e CDs e esse universo do contador de histrias. Ela me ajudou a formular um programa de teatro para as turmas de 1 a 8 srie.
Essa fase foi muito importante para minha consolidao como professora. Eu lembro que no dia que eu deixei a escola eu chorava muito por ter que deixar aquele lugar to importante para mim, mas eu estava com outros trabalhos que me demandavam tempo e precisei sair. Eu lembro que quando sai a Socorro me falou: Gisele, eu sempre soube, o teu lugar no palco!.

9. Qual o seu envolvimento com a poesia de Joo do Vale?
Meu envolvimento com Joo do Vale aconteceu desde o inicio da minha histria no teatro porque o Cludio Silva sempre cantou e tocou as msicas do Joo dentro dos nibus que amos quando nos apresentvamos fora do Maranho. Na verdade a msica de Joo do Vale est sempre presente em todos os lugares em que voc vai, mas eu nunca tinha feito nenhum trabalho sobre a vida dele.

10. Para voc quem foi Joo do Vale?
Para mim o Joo foi uma pessoa extremamente sensvel e um grande artista. Quando se um artista se larga tudo para fazer arte e foi isso que ele fez. O Joo foi uma das poucas pessoas no Brasil que conseguiu ter reconhecimento com muita luta mesmo e que hoje est entre os grandes nomes: Maria Bethnia, Chico Buarque e Nara Leo, ele faz parte dessa gerao. Ele conseguiu esse lugar graas a sua genialidade.

11. Fala-me um pouco sobre como foi participar de uma audio na sua terra natal? Mesmo com tanta experincia no teatro ainda deu um friozinho na barriga?
Eu nunca tinha participado de nenhuma audio na vida! Eu estava muito nervosa, apesar de no parecer. A principio eu nem iria me inscrever por estar muito atarefada com o espetculo de As Trs Fiandeiras, mas por acaso do destino comecei a sonhar com esse espetculo e quando ligava o rdio tocavam as msicas do Joo. Certo dia meus tios, que estavam viajando, me ligaram dizendo que um carcar havia aparecido para eles. Da decidi me inscrever no ltimo segundo da prorrogao (risos).
O que pude perceber com as audies que aqui no Maranho temos muita demanda de artistas para espetculos, mas infelizmente temos pouca oferta. Foram 92 pessoas inscritas para uma audio o que as pessoas precisam perceber que precisamos de mais ofertas no campo da arte no Maranho.

12. Para voc qual a importncia de um espetculo desse porte no Maranho?
muito importante fazer esse espetculo que o momento ideal para interpretar a Nara Leo e falar de Joo do Vale. O momento politico que estamos vivendo hoje propicio para esse espetculo, essa memria da dcada de 60 para c importantssima. Participar desse espetculo agora no s uma atitude artstica, mas tambm uma atitude politica.

13. Como participar da festa de 200 anos do teatro que um dia voc dirigiu?
Quando eu tinha sete anos eu dancei no Teatro Arthur Azevedo, minha av cantava e minha bisav realizava bailes e festas nesse local. um espao de grandes histrias e memrias para mim e minha famlia. Fazer parte desse momento fazer com que as pessoas conheam e reconheam a histria desse teatro.


Publicado em 20.06.2017